• Magdalena, de Heitor Villa-Lobos


    A noite de 14 de agosto de 2010, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi buliçosa! Estreou na cidade a obra do maestro Villa-Lobos, Magdalena, que  teve a sua première mundial no dia 26 de julho de 1948, em Los Angeles. Um atraso de 62 anos, apenas! Nos corredores do centenário teatro carioca, casa de todas as óperas e concertos, vi-me cruzando ou mesmo lado a lado com figuras de renome nacional e internacional da música brasileira. Os compositores Ricardo Tacuchian e Roberto Miranda em altas conversas com o meu amigo, produtor da Rádio MEC e cidadão honorário de Maceió, o teatrólogo Lauro Gomes. A quatro cadeiras de distância, estava o celebrado maestro Roberto Minczuk e ao meu lado uma das virtuoses do piano brasileiro, Laís de Souza Brasil. Simpaticíssima, conversamos animadamente. Pelos corredores, pude cruzar com os maestros João Carlos Ripper e o regente da Orquestra do Theatro Municipal, Sílvio Viegas que se interessou pelo curso de Música da UFAL. O barítono Lício Bruno, sempre agradável e uma das estrelas da noite, no encontro com os admiradores, o soprano Rosana Lamosa. Isso parece uma crônica social, mas inicio minhas observações desse modo para apresentar aos leitores o clima de encontros que agita os corredores e saguões do Theatro Municipal.  Mas vamos à  obra de Villa-Lobos (chamado muito carinhosamente pelos conterrâneos de Villa, simplesmente!).  Segundo Bruno Furlanetto que assina a apresentação da peça, Magdalena não se inclui entre musical, operetta, grand opera, folk opera ou folk operetta. E o que vem a ser Magdalena, afinal? Uma mistura agradável de musical, operetta e ópera. Por que? Pelo musical, a obra de Villa-Lobos pode ser compreendida pela rapidez das passagens  teatrais (assim como essa é uma das características da operetta), inda mais que  o intérprete do personagem Pedro, tenor Fred Silveira, não impostou a voz como de costume nas óperas. O contraste com o soprano Rosana Lamosa (Maria) ficou bem evidente e  anunciava algumas das intenções teatrais do compositor: talvez criar uma nova forma de teatro musicado ou mesmo deixar confusos os críticos. Quem sabe? Além disso, os cantores solistas tinham microfone de lapela, muito à moda dos musicais.  Por operetta entendo que Magdalena também se adapte a essa conformação estética porque é plena de música leve e agradável, sem pretender encabular a platéia. Villa-Lobos brinca de pastiche ao colocar para uma cena da personagem Teresa (interpretada pelo excelente mezzo-soprano Luciana Bueno) uma paródia da "Habanera"  da Carmen de Bizet. E finalmente, por ópera, entendo que a orquestração muito densa  coloca também Magdalena no patamar desse tipo  de teatro musicado. Muita percussão, metais e cordas e belos encontros das madeiras. Nessa première carioca, digamos que o musical de Villa-Lobos foi montado em forma de concerto: a orquestra no fosso e no palco o possante Coro  do Theatro Municipal junto com o Coral Infantil da UFRJ, além dos solistas Inácio de Nonno (General Carabanas), Homero Velho (Padre José), Murilo Neves (Major Blanco) e Miguel Geraldi (Velho do Rio), além dos interpres anteriormente citados. A regência foi de Luís Gustavo Petri. Villa-Lobos foi muito feliz na composição pelo tema apresentado, uma trama colombiana que se passa em Paris e na Colômbia envolvendo um coronel tirano, dono de uma mina de esmeraldas e um casal de jovens apaixonados (Maria e José) e uma cozinheira digna de figurar nos círculos dos melhores mestres do cordon bleu, Teresa. Ouve-se claramente as brincadeiras do maestro quando insere composições anteriores, como a "Canção do remeiro do São Francisco", "Valsa da dor", "Poema singelo", "Pobre Peregrino", além de citações de ritmos  brasileiros e latinos. Num dos momentos do segundo ato ( a peça tem apenas dois atos), ouve-se um baião, com o triângulo fazendo a festa com as cordas e o solista. Um dos momentos magistrais é a transmutação do tema de Teresa que passa de uma deliciosa valse a la française para uma marchinha de carnaval carioca e em seguida para um ritmo de salsa. Toda a platéia se movia com essa brincadeira musical e com certeza a vontade de todos era sair dançando adoidado pela platéia e corredores do Theatro Muncipal (que abrigou por muitos anos famosos bailes de carnaval! Pode?). Senti que a obra careceu de mais ensaios e a boa orquestra do teatro resvalou aqui e acolá, sem maiores comprometimentos, se assim nós a quisermos perdoá-la. A noite fria do Rio (17 graus) ferveu com a estréia carioca de Magdalena.
    Prof. Eduardo Xavier (direto do Rio de Janeiro para o blog da Escola Técnica de Artes da UFAL).